Suinocultura

Produção de suínos livre de antibióticos

Na produção suína, o uso criterioso de antibióticos é uma importante ferramenta para garantir o bem-estar animal e a segurança alimentar

M. Terry Coffey, PhD
Parkway Advisors, LLC

Nos Estados Unidos (EUA), a mudança para produção pecuária livre de antibióticos começou a acelerar, entre os pecuaristas, em 2014 com o anúncio de que a cadeia de restaurantes Chick-fil-A tinha a intenção de passar a apenas trabalhar com produtos criados sem antibióticos após um período de cinco anos. Até aquele momento, a produção livre de antibióticos era geralmente parte de outras categorias de produtos, como carne orgânica e vendida em varejistas de alto padrão, como a cadeia de mercados Whole Foods ou lojas especializadas. Nos dois anos seguintes, diversas cadeias de fast food, de restaurantes casuais e mercados publicamente anunciaram planos para obter parte ou todo seu suprimento de carne de sistemas com uso modificado ou eliminação total de antibióticos.

A transição na indústria de frangos foi dramática, com a maior parte (>50%) da produção dos EUA criada sem antibióticos (ou RWA na sigla em inglês, “Raised Without Antibiotics”) atualmente. Na indústria suína, ocorreram mudanças em regulamentações que eliminaram o uso de antibióticos para promoção de crescimento nos suínos que são importantes para a saúde humana. As regulamentações também exigem maior supervisão veterinária. Essas mudanças reduziram o uso total de antibióticos, mas apenas uma relativamente pequena porcentagem da indústria é RWA. A observação dos fatores que influenciaram onde a indústria suína está hoje vai providenciar alguns vislumbres no que o futuro pode reservar para a produção de carne suína livre de antibióticos.

No que tange o uso de antibióticos, existem três questões, de uma perspectiva regulatória e/ou de consumo, que devem ser levadas em consideração. Primeiro, de uma perspectiva de saúde humana/regulatória, a preocupação é que o uso de antibióticos na produção de animais de corte poderia levar ao desenvolvimento de organismos resistentes e, portanto, reduziria a utilidade de importantes antibióticos usados para tratar doenças. O destaque, nesse sentido, vai para o uso de fármacos classificados para a saúde humana que são usados para fomentar o crescimento dos suínos. Outra questão é que o uso impróprio de antibióticos na produção de animais de corte poderia resultar em resíduos de antibióticos na carne. Por fim, há a expectativa do consumidor sobre como sua comida é produzida, e ele simplesmente prefere comprar carne produzida sem antibióticos;

Da perspectiva da saúde, os EUA, Canadá, União Europeia e outros países mudaram a regulamentação para eliminar o uso de antibióticos importantes para a medicina humana na promoção do crescimento em suínos. Nos EUA, essa regulamentação entrou em vigor em 2018. Em termos de anulação de resíduos, o aumento de exigências regulatórias sobre supervisão veterinária, a educação dos produtores acerca de aderência apropriada a exigências de abstinência e as inspeções do FDA nos registros de fabricação dos alimentos se mostraram eficientes. Sem dúvida o panorama regulatório vai continuar a evoluir, mas essas mudanças endereçaram, em certo sentido, as questões de resistência a antibióticos e anulação de resíduos e resultaram em uso reduzido de antibióticos na produção de suínos.

Nos últimos cinco anos, varejistas e prestadores de serviços da área de alimentos procuraram organizações de produtores, produtores, veterinários e outros especialistas para refinar suas políticas e seu posicionamento sobre o uso de antibióticos. Obviamente, existem diferenças na produção e ciclo de vida de aves, suínos e bovinos. Por exemplo, a indústria aviária, devido ao fato do ciclo de vida dos frangos ser muito mais curto e às vantagens de saúde e biossegurança das granjas (vacinação in ovo) quando comparadas às fazendas suínas, conseguiu fazer uma transição muito mais ágil para a produção RWA. Hoje, restaurantes e franquias de mercados desenvolveram políticas sobre uso de antibióticos separadas para cada espécie (suínos, bovinos e aves) baseados nesses tipos de diferenças. Para a produção de suínos, as políticas abordam tópicos como o gerenciamento do uso de antibióticos, restrições para o uso de certos antibióticos e metas de redução de uso. A maior parte delas não exige a eliminação do uso de antibióticos ou produção RWA. 

Na produção suína, o uso criterioso de antibióticos segue sendo uma importante ferramenta para garantir o bem-estar animal e a segurança alimentar. Esses fatores precisam ser levados em consideração de forma equilibrada com o objetivo de reduzir ou eliminar o uso de antibióticos. Além disso, em adição à exigência de cuidar dos animais e produzir alimentos seguros e nutritivos, produtores suínos estão comprometidos com a proteção ambiental. Animais saudáveis são mais eficientes, exigem menos recursos e, portanto, têm menor impacto ambiental.

O que o futuro reserva para a produção RWA de suínos? Eu trabalhei com equipes que desenvolveram e executaram a RWA com sucesso e com excelentes resultados enquanto, simultaneamente, batiam as metas de entrega para empacotadores. Estes sistemas exigem fazendas com alto status de saúde e que são relativamente isoladas de outros suínos, modificações de aditivos nos alimentos, e mudanças na idade do desmame, abrigo e regime de alimentação. Portanto, no sistema correto e na localização correta, a saúde animal e o bem-estar podem ser gerenciados com sucesso e uma performance razoável. No entanto, o custo de produção é significativamente mais alto e programas RWA lutam para atingir a sustentabilidade econômica devido à incapacidade de aumentar o preço de forma proporcional aos custos de produção.

Existem outros fatores que aumentam os custos de programas RWA. Alguns varejistas e cadeias de restaurantes empilham exigências adicionais, não relacionadas ao uso de antibióticos, nas especificações de produtos RWA. Muitos exigem, por exemplo, que o produto RWA seja extraído de suínos de fêmeas abrigadas em currais de gestação em detrimento de sistemas de cabine de gestação. O uso de subprodutos animais como gordura derretida, refeições de carne e, em alguns casos, proteína do soro do leite na alimentação não são permitidos, o que resulta em maiores custos de alimentação. Outra desvantagem é que ingredientes com boa relação custo-benefício para o alimento de suínos, como DDGs, não podem ser usados pois antibióticos são usados nos processos de fermentação de onde eles são derivados. Na minha experiência, o custo adicional da produção RWA versus a produção convencional é elevado mais pelas restrições na produção e nos ingredientes adicionais da ração do que nos impactos sentidos na performance dos animais.

Obviamente, o empacotador deve pagar ao produtor um valor maior pelo custo adicional da produção RWA. O desafio, portanto, reside no empacotador recuperar esse valor nos produtos derivados do suíno, a fim de compensar o preço mais alto. Pensando acerca dos produtos que vem dos suínos, quais podem, logicamente, suportar um preço mais elevado a fim de recuperar o custo adicional? A carne fresca e cortes como lombo e mignon suíno não podem ser vendidos a um preço alto o bastante para cobrir o custo de uma carcaça criada sem antibióticos. A barriga é o corte nobre com maior potencial de valor. Para a maior agregação de valor desse corte, é necessário que ele seja convertido em bacon e esse não é um produto que vai gerar um grande acréscimo de preço devido ao processo RWA em comparação ao produto criado de forma convencional. O mesmo vale para outros cortes nobres (pernil, paleta), carnes de órgãos, linguiças, salsichas, etc. Portanto, uma limitação para a expansão da produção suína RWA é a incapacidade de aumentar o preço dos produtos derivados do suíno de forma compatível com a elevação dos custos de produção no sistema RWA.

À medida que a indústria avança, existem algumas formas de pensar em como produzir suínos criados sem antibióticos de forma mais eficiente. A mais óbvia é eliminar algumas das exigências de produção que adicionam custo significativo, mas que não tem relação alguma com o uso de antibióticos. Avanços em aditivos alimentícios e melhorias na tecnologia de saúde preventiva, como vacinas mais eficientes e para novas doenças, também vão ser importantes para tornar a produção RWA menos custosa.

Também há trabalho a ser feito na descoberta de formas para extrair mais valor de suínos criados sem antibióticos. A conversão de carne suína fresca para produtos embalados e mais processados é chave para a lucratividade da carne suína produzida de forma convencional, especialmente para cortes de menor valor, como o presunto. O mesmo vale para suínos RWA. Um número maior dessas carcaças devem ser convertidas em produtos de alto valor, como frios de delikatessen, que tem o potencial de precificação mais alto no mercado.

Devido à importância de antibióticos para a saúde humana, o escrutínio em cima de produtores de suínos ou outros animais de corte acerca do uso desses fármacos deve continuar. Para significativamente expandir a produção RWA, produtores e especialistas em saúde animal devem trabalhar juntos para desenvolver sistemas de produção que oferecem maior biossegurança, permitam melhor saúde animal e resultem em produção livre de antibióticos a um custo competitivo. Ao mesmo tempo, a indústria de empacotamento precisará desenvolver novos produtos e mercados que destaquem produtos diferenciados que foram criados sem o uso de antibióticos.

Newsletter Universo da Saúde Animal

Receba as principais novidades e informações sobre o universo veterinário.