Suinocultura

Bem-estar dos suínos nos EUA

Suíno deve estar saudável, confortável, bem-nutrido e seguro, sem sentir dor ou medo

A promoção do bem-estar animal é uma das responsabilidades éticas principais da indústria de suínos. Entre os desafios enfrentados por produtores está a falta de compreensão do público e dos consumidores sobre a pecuária suína, pois menos de um porcento da população está envolvida na agricultura atualmente. Essa falta de compreensão é especialmente aparente quando o assunto é bem-estar animal. Indivíduos trazem diferentes perspectivas sobre o que um animal precisa para estar em um estado de bem-estar. Por exemplo, alguns pensam que a qualidade de vida é melhor para porcos criados em granjas ou áreas abertas, em detrimento daqueles em confinamento. No entanto, em condições climáticas extremas, como períodos de intenso calor ou frio extremo e/ou neve, o bem-estar dos animais é reduzido nesses sistemas. Não há uma forma perfeita de criar suínos e existem vários sistemas que, se gerenciados apropriadamente, podem manter um estado de bem-estar para esses animais.

Para garantir o devido bem-estar na produção suína hoje é importante continuamente avaliar e, se necessário, melhorar nossos métodos de produção e cuidado animal, guiados pela pesquisa e informações científicas objetivas. O bem-estar animal, de acordo com a Associação de Medicina Veterinária Americana, é medido por como o animal está lidando com as condições[1] nas quais vive: “Uma boa condição de bem-estar é quando o animal está saudável, confortável, bem-nutrido, seguro, capaz de expressar comportamentos natos e não está com dor, medo ou alarmado. Além disso, boa qualidade de vida animal exige prevenção de doenças, cuidado veterinário, abrigo adequado, gestão apropriada, nutrição, além de cuidado e abate humanitários”.

Levando em consideração essa definição, é óbvio que produtores de suínos devem gerenciar cuidadosamente todos os aspectos do processo produtivo para garantir que seus animais estão em um estado de bem-estar. Funcionários propriamente treinados e que entendem os princípios e a importância do bem-estar animal para a produção segura e positiva de alimentos são essenciais. Algumas áreas de gerenciamento que exigem foco específico são o manuseio apropriado, gerenciamento de dor, eutanásia e abrigo para gestação.

Consumidores estão cada vez mais interessados em saber como sua comida é produzida e querem a garantia de que animais de corte são produzidos sem crueldade. Em alguns países (UE e Austrália), os governos criaram regulamentações de bem-estar animal que determinam requerimentos específicos e detalhados para pecuaristas, incluindo o design dos abrigos, regulamentações de transporte, gestão de dor, exigências de espaço, etc. Em alguns casos, essas exigências podem não ser baseadas em informações científicas e, como resultado, podem acabar deteriorando o bem-estar dos animas e/ou desnecessariamente podem adicionar custos que devem ser transmitidos ao consumidor. O espaço exigido para fêmeas suínas em baias de gestação coletivas na Austrália, por exemplo, é de cerca de 15 pés quadrados (em torno de 1,4m²), enquanto na UE é de cerca de 24 pés quadrados (cerca de 2,22m²). Obviamente, ambos não podem estar corretos se baseados em informações científicas. Inúmeras pesquisas científicas em vários países demonstraram, de forma consistente, que quando o bem-estar de fêmeas de suínos em abrigos de gestação é medido objetivamente, ele não aumenta à medida que o espaço disponível supera a marca de 15 a 16 pés quadrados (cerca de 1,5m²).

Nos Estados Unidos, a crueldade contra animais é um crime, mas não existem padrões nacionais de bem-estar estipulados pelo governo para o setor de produção pecuária. Para a indústria de suínos, grupos de produtores incluindo o National Pork Board e o National Pork Producers Council trabalharam com empacotadores e outros participantes da indústria para desenvolver estes padrões. O Pork Board mantém e opera o programa Pork Quality Assurance-Plus (PQA-Plus), definido como “um processo educacional e de certificação para obter melhores práticas de produção a fim de garantir segurança alimentar, bem-estar animal, proteção ambiental, segurança dos trabalhadores, saúde pública e comunidade”. O programa é continuamente avaliado e revisado de três em três anos para alcançar os objetivos da indústria, assim como as expectativas de clientes e consumidores. Produtores recebem a certificação por meio de um programa educacional e, então, as fazendas podem receber o status PQA-Plus por meio de uma inspeção no local. Além disso, a Pork Board começou a trabalhar com empacotadores, clientes e outros setores da indústria para desenvolver uma fundação comum para inspeções terceirizadas de bem-estar animal para facilitar a consistência em toda a indústria. Essa inspeção terceirizada ocorre em adição à inspeção do PQA-Plus e é chamada de The Common Swine Industry Audit. O propósito dessa auditoria é garantir, por meio de uma verificação imparcial, que o sistema PQA-Plus está funcionando adequadamente. Hoje, todos os principais processadores de carne nos EUA exigem que seus fornecedores sejam tanto certificados com o PQA-Plus quanto que tenham, de forma rotineira, completado o Common Swine Industry Audit para garantir que o bem-estar dos suínos seja mantido.

A questão de bem-estar mais controversa na indústria de suínos dos EUA é o uso de cabines de gestação. Ainda que não existam informações científicas indicando que o bem-estar de fêmeas suínas melhore em currais pré-natais quando comparados às cabines, alguns estados baniram o uso de cabines de gestação. Os 10 principais estados produtores de suínos nos EUA produziram mais de 90% da carne suína do país, e nenhum desses estados tornaram ilegal o uso de cabines – estas leis estaduais não tiveram um impacto em uma parcela significativa da capacidade de produção. Em 2019, o estado da Califórnia adotou uma lei que, a partir de janeiro de 2022, vai proibir a venda de certos produtos suínos que não foram produzidos de acordo com os padrões de produção da Califórnia, não importando se os animais foram criados em outro estado. A Califórnia é um estado com uma população grande e representa cerca de 13% do mercado americano de carne de porco, mas tem apenas 1.500 fêmeas suínas comerciais em produção. São necessárias as crias de cerca de 675 mil fêmeas apenas para atender a demanda do estado por carne suína. E, de acordo com o National Pork Producers Council, apenas 1% do suprimento nacional de suínos estaria em consonância com as exigências. Algumas das exigências mais onerosas da legislação são relacionadas ao abrigo dos animais: por exemplo, a lei exige que as fêmeas suínas tenham pelo menos 24 pés quadrados (cerca de 2,22m²) de espaço no curral pré-natal. Isso está sendo litigado nos tribunais, dado que os padrões são arbitrários e não baseados em informações científicas. Além disso, considerando que o estado produz apenas uma fração da carne suína que consome, a lei essencialmente regulamentaria fazendas para além de suas fronteiras. Grupos agrícolas argumentam que isso está em violação da cláusula de comércio da Constituição Americana.

À medida que consumidores se tornam mais interessados na forma como sua comida é produzida, os padrões e programas de bem-estar animal evoluíram para além da cadeia produtiva de suínos. A maior parte dos varejistas de alimentos e cadeias de restaurantes nos EUA estabeleceram padrões mínimos de bem-estar para a produção, transporte e abate de suínos. Muitos destes padrões são consistentes com as exigências do PQA-Plus e da Common Swine Industry Audit, mas existem exemplos de empresas estabelecendo requerimentos que vão além destes padrões. Na maior parte dos casos isso está circunscrito a produtos suínos premium ou iguarias específicas. Estes tipos de produtos geralmente exigem um preço mais alto por parte dos produtores suínos que estão dispostos e são capazes de adaptar suas operações para atingir as exigências.

Ainda que as pesquisas mostrem que fêmas suínas possam manter uma boa qualidade de vida em cabines de gestação ou sistemas de abrigo compartilhado, alguns produtores na América do Norte, em resposta aos desejos dos consumidores, converteram ou anunciaram planos para uma transição das cabines. Esse processo está em curso há cerca de 10 anos e hoje, aproximadamente um terço das fêmeas suínas nos EUA residem em sistemas de abrigo coletivo. No entanto, mesmo após a conversão para a gestação em currais, menos de 1% das fêmeas nos EUA estão abrigadas em sistemas que atenderiam às exigências da lei californiana discutida previamente.

Produtores devem se manter comprometidos ao aprendizado e melhorias contínuas acerca do bem-estar dos suínos em nossos sistemas de produção. Sem dúvida, a expectativa dos consumidores continuará a evoluir também. Produtores suínos, veterinários e cientistas da área devem apoiar e encorajar a boa ciência e devem estar dispostos a utilizar evidência objetiva como base para mudanças nas práticas de produção.


[1] www.avma.org/resources/animal-health-welfare/