Suinocultura

O impacto da peste suína africana no mercado global de carne suína

A peste suína africana afeta o mercado global de carne suína em larga escala devido a diferentes fatores

A peste suína africana (PSA), também conhecida como febre suína africana (por causar febre hemorrágica), é uma doença de notificação obrigatória aos órgãos nacionais e internacionais com alto potencial de transmissão entre suínos domésticos e asselvajados. O agente etiológico da PSA é um vírus com DNA fita dupla pertencente à família Asfarviridae que está ligado a um índice de mortalidade de até 100%. A letalidade e as manifestações clínicas podem variar de acordo com a carga viral envolvida, mas como a peste suína não tem tratamento, os danos econômicos são irreversíveis.

A origem da peste se deu na África em 1900 e posteriormente a doença foi relatada em outros continentes. Após mais de 40 anos que a doença foi erradicada nas Américas, surtos na República Dominicana e no Haiti acenderam um alerta para o mercado de carne suína dos países da região, já que a enfermidade causa um impacto imenso no comércio externo. A fim de compreender com mais precisão quais as implicações os surtos de PSA têm no mercado global, conversamos com Miquel Collell, médico veterinário e diretor técnico global de suínos da Merck. Veja a seguir!

Peste suína africana dizima populações de suínos, impactando o comércio exterior e outras commodities 

Embora a peste suína não tenha o potencial de contaminar humanos, os prejuízos financeiros subsequentes tornam o debate acerca dessa epidemia tão relevante. Segundo Miquel, “Os impactos econômicos são devastadores. A China, por exemplo, perdeu a metade da população de suínos com a peste. Isso influenciou muito no mercado global, já que países como a Espanha aumentaram a exportação (de carne suína) de maneira quase exponencial, tendo um efeito muito importante no preço da carne. Além disso, está demonstrado que o preço da carne suína afeta o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) de um país de uma maneira bastante significativa”.

Os preços mais altos do mercado de carne suína não afetam apenas a suinocultura, mas também impactam commodities agrícolas como a do milho, a da soja e da carne bovina. Como esses insumos são exportados majoritariamente para uso em rações de suínos, o preço desses alimentos tende a cair à medida que aumenta o valor de substitutos da carne suína, como a carne de boi e de aves.

Mercado de carne suína: consequências da peste podem levar à insegurança alimentar e nutricional

Com o aumento abrupto dos preços de outros alimentos para substituir a carne suína, as despesas com alimentação são potencializadas e, como consequência, as pessoas se tornam mais vulneráveis à fome, principalmente em países de baixa renda. Isso é exemplificado em um artigo publicado na revista on-line Nature Food, que aponta que o surto de peste suína africana na China interferiu em um aumento nos preços dos alimentos de até 9%, e que a disponibilidade média de calorias per capita diminuiu em mais de 50 kcal por dia.

Desenvolvimento da vacina contra peste suína africana pode frear os danos econômicos no mercado global

Frente aos impactos da peste suína africana no mercado global de carne suína, Miquel Collell lamenta que enquanto não houver vacina para a doença, não há como evitar a morte de populações suínas relacionadas. Mas o médico veterinário apresenta uma visão otimista em relação ao desenvolvimento de imunizantes: “Podemos dizer que o desenvolvimento das vacinas está relativamente avançado. Provavelmente em breve teremos opções que podem demonstrar alta eficácia. Um dos objetivos com os imunizantes, é que seja possível diferenciar animais vacinados de animais infectados para elaborar um plano de erradicação”.

Segundo um artigo divulgado na revista científica Philosophical Transactions of the Royal Society B, uma preocupação com o uso de vacinas contra o vírus da peste suína africana é a diversidade de cepas circulantes em alguns países. Mas a publicação indica que estudos recentes demonstraram proteção cruzada entre diferentes genótipos, o que pode ser uma possibilidade para desenvolver vacinas que ofereçam proteção contra várias cepas. 

Por fim, podemos concluir que as consequências da peste africana no contexto global são imensas, onde não só a suinocultura é afetada, mas também outras commodities e o acesso à alimentação, visto que a queda no consumo de carne de porco impacta todos os setores econômicos direta ou indiretamente. Também é importante destacar que embora não haja vacina para erradicar a infecção até o momento, é de suma importância estabelecer medidas para prevenir os surtos da doença e a sua propagação global.

* Miquel Collell é médico veterinário formado pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e é Diretor Técnico Global Suínos da Merck.

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